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Blog de Melzão
 


Eu sempre achei Guimarães Rosa muito chato. O fato de eu ter tido meu primeiro contato com ele por causa do vestibular ajudou a odiá-lo, é verdade. O fato do primeiro texto que eu li dele ter sido o conto "A Terceira Mrgem do Rio" ajudou mais ainda.

Afinal, esse conto é muito complicado. Lido sob a pressão do vestibular, que nos obriga a aprender muito mais do que nos deixa apreciar, complica-o ainda mais.

Depois, já na faculdade, tentei ler outras coisas desse autor e nunca passei das primeiras páginas. Começava, desistia e ficava na dúvida: ou eu sou idiota ou estou enfrentando mais um exemplo de "roupa invisível do rei".

Como sei que sou idiota, desconsiderei a hipótese do rei nu que desfila perante o povo que, com mede, aplaude a beleza de sua roupa imaginária.

Mas, mesmo assim, não conseguia ler o cara. Só agora é que consegui achar graça no figura. E não foi lendo seus livros e contos, que permanecem no fundo da prateleira, acumulando pó.

Foi por causa de um escritor americano responsável, segundo os críticos, pelas melhores traduções feitas do português e do espanhol para o inglês. Seu nome é Gregory Rabassa.

Ele traduziu, por exemplo, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis.

Bom, o tal Gregory foi entrevistado pela Veja numa matéria especial sobre os 100 anos da morte do criador de Quincas Borba. Ao final da entrevista, o repórter perguntou pro cara por que que ele nunca quis traduzir "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa.

Gregory disse que tentou, mas desistiu.

Nesse ponto, eu torcia pra ele dizer que também não entendia patavinas do que o autor brasileiro escrevia e, assim como eu desisti de ler, ele desistira de traduzir.

Mas não. Ele desistiu porque o livro começa com a seguinte epígrafe: "O diabo na rua, no meio do redemoinho" (sinceramente, não parece algo sem sentido???).

Então, ele traduziu: "The devil on the street, in the middle of the whirlwind". Mas, ao reler a tradução, percebeu que o diabo não estava só na rua ou no meio do redemoinho, mas estava também no meio da palavra "re-demo-inho".

Pronto, aí ele desistiu, apesar de revelar que até achou uma solução em inglês pro problema.

E eu percebi que, de fato, não dá pra ler Guimarães Rosa pensando no que um examinador pode perguntar numa prova. Tem que ler atravessando as palavras, por mais estranho que isso possa parecer.

E lá vou eu tentar ler Guimarães Rosa de novo.

 



Escrito por Melzão às 02h59
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O Brasil não é um país sério. É um país de faz de conta.

 

Para chegar a essa conclusão, eu poderia citar uma série de fatos com os quais a gente se depara diariamente.

 

No entanto, é sobre o tema “prestação de contas de campanha” que eu vou me ater.

 

Pra começar, esclareço, para os leigos: a lei determina que os candidatos e os comitês financeiros[1] devem prestar contas de tudo o que movimentaram financeiramente durante o período da campanha política para a Justiça Eleitoral, seja na forma de dinheiro, seja na forma de coisas (que recebem o nome de “bens estimáveis em dinheiro”).

 

E essa mesma lei escolheu a Justiça Eleitoral para fazer o tal controle das contas, o que é normal.

 

Então, a Justiça Eleitoral, cheia de entusiasmo, vai lá e toma uma série de medidas pra mostrar pro povo que ela funciona, que é presente, que vai colocar todos esses bandidos imundos que roubam o Brasil na cadeia, ouviu bem?

 

Primeiro, ela edita, dentro da sua competência, uma Resolução bem detalhada e rigorosa estabelecendo as regras para a prestação de contas.

 

Nessa resolução, ela estabelece uma série de critérios para análise e as sanções para os erros dos candidatos.

 

Aí, como a resolução foi editada lá em Brasília, no começo do ano eleitoral e tem que ser aplicada do Oiapoque ao Chuí, a Justiça Eleitoral organiza uma série de ações de treinamento.

 

Instuções são passadas, softwares são desenvolvidos, diretrizes são informadas, cronogramas são marcados, turmas são organizadas, testes são feitos, provas são aplicadas, viagens são realizadas, manuais são elaborados, explicações são dadas, campanhas são publicadas etc.

 

Imagine, leitor, dinheiro sendo gasto. Agora imagine mais. Por fim, tente imaginar de onde veio esse dinheiro. Pronto. Feito o exercício de imaginação, voltemos ao raciocínio inicial.

 

Chega a eleição. Proclamados os eleitos, começa a correria das prestações de contas. Nesse momento, o candidato já nem sabe mais de nada, se gastou, se arrecadou, onde tá o recibo, cadê aquele extrato, meu deus?

 

Um coitado escolhido pelo partido - geralmente um contador bem estabelecido na cidade - se vê com a dura missão de organizar a papelada, estudar a lei, aprender a mexer no software e entregar tudo no cartório.

 

O funcionário do cartório eleitoral, recém aprovado num concurso, ganhando bem (lembra do dinheiro sendo gasto?), super motivado, pronto pra atender ao chamado patriótico e mostrar praqueles inescrupulosos que a Justiça Eleitoral não é mais a mesma e, finalmente, os políticos serão punidos por algo errado que fizeram, senta na sua mesinha com um processo à frente.

 

Ele, que participou ativamente de todo aquele parágrafo chato anteriormente escrito, acumulando conhecimento e vontade de finalmente agir – afinal, na Justiça Eleitoral só se trabalha de 4 em 4 anos (ou, sendo bonzinho, de 2 em 2) – analisa as contas do candidato, acha um monte de incongruências na papelada, passa por cima do sistema que não funciona e faz um parecer pela desaprovação das contas.

 

Putz! E agora? O candidato não poderá ser eleito? Não tomará posse? Será cassado? Condenado à forca? Será preso em operação da PF com nome legal chefiada por um delegado com nome estranho?

 

Não! Nada disso! Ele pegará o processo – não sem antes dizer que entendeu tudo o que está escrito, apesar de não concordar com nada, afinal, foi só um errinho, como é que pode uma coisa dessas? – levará para casa, brigará com o contador e, depois de três dias, apresentará sua justificativa.

 

A justificativa será analisada pelo promotor eleitoral, que emitirá sua opinião. Depois, o juiz vai decidir se aprova ou não as contas. Ou seja, o juiz e o promotor, que foram completamente excluídos daquele esquema do parágrafo chato (pq, alguém sabe? Eles sequer foram consultados ou ouvidos!) –, é que decidirão as contas dos candidatos. Na maioria das vezes, as contas serão aprovadas.

 

Ou seja, o candidato faz errado e as suas contas são aprovadas. Pra que a resolução? Pra que o treinamento? Pra que o martírio dos prazos e sistemas que não funcionam? Pra que?

 

Lembra daquele dinheiro todo que vc imaginou sendo gasto? Agora, imagine ele sendo rasgado...

 


[1] (A propósito, comitê Financeiro é uma entidade que a lei obriga os partidos a constituírem para organizar esse lance das contas dos candidatos e auxiliá-los. Todo partido que lança candidato numa eleição tem que constituir um Comitê Financeiro. Não se pode confundir o Comitê Financeiro com os vários “comitês” que são os QGs dos candidatos)



Escrito por Melzão às 11h10
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